sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Lar

Eu olho pra minha sala e vejo a Rosalva, minhas decorações na prateleira da TV, os souvenirs dos lugares que visitei, amontoadinhos como uma espécie de tesouro, sendo iluminados pela vela que acendi e que enche o ambiente com um cheiro de zimbro e lavanda.

Eu olho pro lado e tem minha geladeira, que tem soltado um líquido amarelo e que venho ignorando há semanas porque tô convencida de que vai se consertar sozinha, mas que também tem um monte de ímãs bem cafonas como lembranças das minhas viagens. Também tem fotos minhas com as minhas irmãs, nossos cachorros, paninhos na mesa e uma galinha de crochê que a minha vó fez como peça fundamental de decoração da minha cozinha.

O banheiro é como sempre imaginei que seria: cheio de organizadores, maquiagem, pincéis em porta-pincéis improvisados que um dia foram embalagem para outra coisa. Meus skincares organizados em uma caixa de acrílico, igual às blogueiras que eu via aos 16 anos.

E o quarto tem lençóis brancos de hotel, tem ar-condicionado que deixo ligado por quanto tempo eu quiser, tem um guarda-roupa enorme só pra mim. É tanto espaço que sobraram prateleiras.

Tem tudo isso aqui em casa, Aline.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

boazinha

Você vai passar os próximos 20 anos da sua vida acreditando que para ser amada você precisa fazer algo para merecer.

Você precisa agradar. Seja agradável. Tente não questionar tanto e só concorde! Não diga não.

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- Filha, vai dar uma abraço na moça! 

- Não mãe, não quero.

- Vai sim, seja boazinha, ela trouxe bolo pra você.

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O amor é uma troca pra você agora, e você aprendeu isso bem cedo. Você precisa trocar os seus 'nãos' por um pedaço de bolo. É assim que se merece o amor. É assim que se consegue o amor.

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- Amor, hoje não quero, não tive um dia bom, prefiro dormir, ok?

- Nossa amor, eu fiz a janta pra você, fiquei esperando o dia todo...

- Ta bom amor....

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Ceda, os desejos dos outros devem se sobrepor aos seus limites. Você não é sua prioridade. Se você quiser amor, faça por merecer, conquiste! Você vai precisar ceder muitas vezes e se puder vá além, faça mais, só assim você será amada.

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- Lave a louça logo, ajude em casa! Cuide das suas irmãs. Sua mãe está voltando do trabalho, limpe tudo, não reclame, não brigue. Ela paga as contas de casa, compra suas roupas e sua comida! Seja boazinha, você deve isso à ela. Assim ela vai te amar.

- Estude mais, não pergunte, não pinte seu cabelo, não fure sua orelha, não beba, não saia, não namore. Seu pai te deu o material escolar, ele comprou canetas coloridas! Seja boazinha, você deve isso à ele. Assim ele vai te amar.

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Agradeça por todo esse amor: comida e canetas coloridas. Isso é muito mesmo. Você fez por merecer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

3x4

 











domingo, 26 de outubro de 2025

Percentuais

 Tenho medo de estar sendo muito eu.

Quando minha irmã e eu éramos menores, por volta dos 12 anos de idade, lembro de estarmos deitadas na cama, conversando depois de um fim de semana em que passamos o tempo todo brincando e sendo esquizofrênicas, como sempre fomos, ela virar pra mim e falar: “Ô feia, será que um dia a gente vai encontrar alguém que aceite a gente como a gente é?”

No fundo, nós duas sabíamos que éramos diferentes da maioria das crianças com quem convivíamos. As poucas com quem conseguimos nos aproximar permanecem nossas amigas até hoje. E todas, sem exceção, continuam completamente malucas.

 Ao vê-la casada com uma pessoa que a ama por quem ela é, e que além disso, nutre e expande a alma dela, me pergunto: será que isso é possível pra mim também?

Por muito tempo, não só por causa do relacionamento que tive, mas também por ela, me obriguei a ser racional, firme, o suporte que minhas irmãs e família um dia poderiam precisar. Confesso que vê-la morando em Barcelona e sendo tão bem cuidada pelo meu cunhado me traz um sentimento de alívio.

Talvez agora seja a minha vez de poder ser livre de mim mesma.

Ainda sinto que não me encaixo, que jamais serei completamente compreendida ou aceita. Nos últimos meses, tenho mostrado ao mundo as minhas peculiaridades, mas percebo que talvez precise fazer isso em doses homeopáticas.

Ser eu mesma tem me trazido medo e angústia, talvez porque, por muito tempo, precisei ser menos de mim para caber nos outros. Tenho me confrontado com tanto desejo e vontades reprimidas, que as vezes me desconheço.

Quando me pediram para ser só 60% de quem sou, talvez fosse um aviso: eu era demais.

Devo ser menos para me encaixar aqui?

Por que me tornei tão complexa, tão 100%? 

Talvez eu devesse ter parado nos 90%. Acho que teria me encaixado melhor.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Conexões

 Quando peguei o avião para Londres eu já sabia que minhas expectativas precisavam de realinhamento e que eu teria que deixar pra trás fantasias que alimentei decorrente de uma paixão que fazia tempo que não sentia.

 Essa extensão da minha viagem foi quase um salto de fé.

É curioso, porque mesmo não dando certo, agora tenho muita vontade de viver de novo isso, não deveria ser o contrário? A verdade é que percebi que para mim paixão é gostosa, divertida, faz a gente se sentir viva de verdade, mas não sustenta sozinha grandes conexões. É preciso tomar a decisão de que para viver grandes amores, é preciso querer. Sim, cheguei à conclusão de que para eu ter um relacionamento de novo eu preciso só querer, quase como um estalo racional.

E a decisão de querer perpetuar conexões envolve criar um ambiente de segurança emocional, convergência de mundo, vulnerabilidade, e em parte, reprimir desejos e impulsos.

Embora esteja voltando para casa sabendo que não nos encontraremos novamente, levo na minha bagagem somente as melhores partes dessa experiência, e é importante que seja feito de uma forma que você também entenda: em bullet points:

  •  Levo para casa a intensidade que você trouxe para minha vida, que me releva que embora eu seja capaz de me fazer parecer fria, não sou boa o suficiente para me fazer acreditar que o amor é impossível. Talvez eu seja uma eterna romântica.
  • As vezes é na impulsividade que viverei grandes momentos de felicidade, ganhei memórias que nunca teria se não tivesse me aberto para viver.
  •  Existem limites inegociáveis, e colocá-los para as outras pessoas não deve me causar culpa.
  • Amor e leveza existem, mas não precisam virar futuro.
  • O tempo é meramente coadjuvante numa história de amor.
  • Existe um mundo bem grande que não é tão difícil de eu explorar, preciso só confiar mais em mim, e abandonar as restrições que alimentei do meu passado
  • Você é um furacão de possibilidades, passa arrastando tudo em volta, abrindo portas, reduzindo grandes dificuldades em coisas simples e óbvias, as pessoas só precisam estar atentas para ouvi-lo e serem flexíveis para absorver o que no fundo você quer dizer. Levo para casa tantas opções do que fazer daqui pra frente, que terei que comprar bagagem extra.
  • Eu devo me permitir ser amada e você também.

 Memórias são muito mais profundas do que expectativas.

Obrigada por ter passado pela minha vida da forma como você saber fazer: intenso, atropelando tudo, revivendo sentimentos, revirando e desfazendo certezas, apresentando referências, desafiando padrões, expressando extrema sinceridade e tudo isso, sendo leve.

Há 4 anos atrás escrevi neste blog: “Será que aos 30 serei o que quero ser?”. Posso dizer para a Aline de 26 anos que ainda não, mas certamente hoje sou uma pessoa melhor do que era, e em partes, por sua causa. 

Com amor,

Aline.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Selfies da viagem
















 

sábado, 23 de agosto de 2025

Viagem

Minha viagem de 30 dias pela Europa não tem tido objetivos muito claros, e tampouco grandes motivações além da coragem de raspar minha reserva de emergência e aceitar multiplicar tudo por R$ 7,00, não sei muito bem o que fazer aqui.

Fora um ou dois destinos planejados, o resto simplesmente tem acontecido. Na realidade, percebi que essa viagem é menos sobre os lugares para onde vou ou museus que visito, e mais sobre revelar que, se eu quiser realmente viver, preciso abandonar a segurança que já conheço.

Não tinha me dado conta do quanto tenho vivido em uma zona de conforto e de como meu vício em trabalho é só um sintoma dessa busca constante por desafios, desafios que, até agora, se limitaram ao âmbito profissional. Talvez por falta de referência, ou por nunca ter ousado olhar para além do que sou ou do que sei fazer, acabei acreditando que a vida se resumia a trabalho, projetos e planilhas. Acreditei naquilo que me falaram que era o possível para mim.

Eu acreditava que essa viagem me tornaria maior, mais legal, mais interessante. Mas, na prática, o efeito tem sido o contrário. Tem sido um grande exercício de controle do ego conhecer tanta gente que, aos 30, já experimentou tanto, viveu de tudo, se despiu de preconceitos e se refez tantas vezes, me fazendo enxergar que não sou tão especial assim, na verdade, sou mais comum do que imaginei.

Ao longo dessa viagem, perdi a conta de quantas vezes me senti burra. Precisei treinar meu cérebro para lidar com o fato de que não estou nem perto de ser a mais inteligente aqui. Na verdade, eu errei todos os portões de embarque de todos os aeroportos. Além disso, existe uma barreira linguística enorme que não permite que eu me expresse da forma como eu quero, o que tem feito com que eu passe mais tempo em silêncio, guardando palavras que eu gostaria de ter dito. 

Tenho ficado em silêncio, ouvindo, aprendendo. Fazia tempo que não me sentia tão vulnerável, tão insegura. Às vezes tenho a impressão de que tenho vivido numa espécie de fazenda no interior de Santa Catarina, cuidando de gado, isolada, sem internet. É meio deprimente às vezes, porque enfrentar minhas certezas, reconhecer minhas limitações e encarar a pequenez da minha existência no mundo me assusta. Tira a segurança, a autoconfiança e, ao mesmo tempo, me devolve uma estranha motivação. 

Embora já esteja me acostumando com os aeroportos, ícones do Google Maps e linhas de metrô, o medo ainda se faz presente. Ele me obriga a exercitar a coragem com frequência, mas também provoca em mim a vontade de voltar para casa, para a rotina que conheço, para o abraço da minha zona de conforto, para o cobertor com cheiro de Rosalva.

Anseio a volta para casa, mas também anseio conhecer mais do mundo.

Acho que preciso ser mais paciente comigo mesma.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Prevejo

Eu vou te dizer o que vai acontecer agora.

Em menos de 6 meses vocês estarão namorando.

E eu terei certeza de que fiz a escolha certa.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Não há voz que alcance

 Mesmo imperfeito, meu amor é todo

Inteiro teu, inteiro teu

Por mais que eu queira declarar
Me confessar pra sempre tua

O veredito certo só você quem pode dar


Não há voz que alcance
Bryan Beh

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Companhia

Sempre gostei de fazer as coisas sozinhas, mas não imaginaria que me apaixonaria tanto pela minha própria companhia, ao ponto de pensar que talvez jamais consiga me dividir com outra pessoa.

Quando falaram para mim que eu deveria aproveitar essa fase da minha vida para viver um pouco a solitude, eu não sei ao certo se as pessoas sabiam de fato o que estavam aconselhando.

A verdade é que a maioria das pessoas tem dificuldade de conviver com elas mesmas, algumas precisam ocupar todo o espaço de solidão com alguém ou alguma coisa. Um novo romance, uma festa na sexta-feira a noite ou 5 novos hobbies. E tem até quem aceite viver com tão pouco por achar que pior mesmo é viver só.

Já fui tudo isso.

Tive medo da solidão quando percebi que numa quinta-feira passei o dia anterior inteiro sem falar com ninguém. Estou desconsiderando os diálogos que tive com a Rosalva (minha cachorra), porque ainda tenho um senso do limite da loucura.

Eu precisei aceitar que estava sozinha da companhia física de outra pessoa, e na minha nova rotina não teria pra quem contar as fofocas do trabalho, comer um sushi no meio da semana ou ser abraçada na madrugada depois de um pesadelo.

Apesar de ser um processo doloroso no começo, você percebe que mais cedo ou mais tarde precisará aprender a gostar de viver sozinha, porque nessa vida, talvez seja você a última a partir.

Com o tempo, aprendi a não preencher o silêncio o tempo todo. As opiniões sobre os acontecimentos do meu dia a dia passaram a ser somente minhas, já que agora eu tinha mais tempo pra elaborar situações que aconteciam e entendê-las sob o meu olhar e não o de outra pessoa. Descobri nesse processo que na realidade julgo bem menos agora do que antes. Também descobri que prefiro ir ao cinema sozinha, assim não preciso ouvir comentários sobre o roteiro do filme no meio da sessão. Tenho passeado muito com a Rosalva, as vezes vamos a praia e ficamos sentadas por horas sozinhas. 

Tenho gostado de ver minhas plantas pegar sol de tarde e tenho tido muito mais sucesso em garantir a longevidade delas. Também descobri o quanto é bom ficar sozinha no domingo a noite, o que antes eu achava o pior momento da minha semana, passou a ser o dia de usar minha máscara de skin care e fazer minhas unhas.

Pra falar a verdade, tenho até inventado compromissos para negar convites de amigos para sair, só pra poder passar mais tempo comigo.

Mas pra minha sorte, a solidão que vivencio hoje é uma decisão minha, e é por isso que é suportável e tão boa, porque posso finalizá-la quando quiser, pois tenho família e amigos pra quem sempre posso voltar.

você vem sempre aqui?

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